Artigos



O futuro da consultoria de imagem: estamos preparados para os novos desafios?


 

Esse texto abaixo não foi excrito por mim mas compartilho por refletir o que eu penso e A consultoria de imagem se expande em números e possibilidades. Como representante da FIPI (Federação Internacional de Profissionais de Imagem) em Minas Gerais, observo um fluxo crescente de profissionais nos eventos e, com eles, novas perguntas em torno de nossas práticas e metodologias — ainda bem! Pudera: tecnologias como redes sociais, Big Data e Inteligência artificial têm transformado a maneira como nos relacionamos com a imagem e com a moda.

 

Fashion ++, criado por pesquisadores da Universidade do Texas, da Cornell Tech, da Georgia Tech e do Facebook AI Research, por exemplo, utiliza inteligência artificial para fazer sugestões de estilo. O modelo analisa imagens postadas por produtores de conteúdo da área para traçar sugestões inteligentes no guarda-roupa do usuário. E, apesar de ser uma tecnologia criada por pesquisadores reconhecidos, o Fashion ++ já tem seu código aberto disponível.

 

Considerando esse contexto, será que ainda faz sentido discutirmos à exaustão temas como coloração pessoal, estilo, identidade visual e tendências nos mesmos moldes de 5, 10 ou 15 anos atrás? Com isso, não quero prescindir desses assuntos, afinal, eles compõem o escopo do nosso trabalho diário. Contudo, acredito que precisamos pensá-los à luz das demandas da contemporaneidade para entendermos o que está em nosso futuro.

 

Personalização em tempos de Inteligência Artificial

 

Cada vez mais, a tecnologia fará o trabalho técnico de muitas áreas, inclusive do consultor de imagem. A plataforma Fashion ++ é apenas um exemplo do que aplicativos, sites e dispositivos podem fazer nesse setor. O Your Closet permite que o usuário organize e visualize os itens que tem no armário, de forma que ele possa planejar o que vestir e gerenciar suas peças. E há uma série de aplicativos que facilitam as compras. A questão é: como nós, consultores de imagem, usaremos essas tecnologias para entregar um serviço mais benéfico para nossos clientes? Acredito que uma das respostas esteja na personalização.

 

Serviços personalizados serão cada vez mais requisitados, o que nos demanda conhecer a fundo o nosso cliente. Será que uma única entrevista, prática adotada por uma boa parte dos consultores de imagem para início do processo, basta para entender aqueles que nos procuram? Acredito que não. Minha proposta é que devemos aplicar mais tempo para conhecer nossos clientes, pois só assim teremos condições de fazer um trabalho humanizado, que dê autonomia a eles. Por isso, não basta estarmos munidos de técnicas; é preciso que tenhamos uma abordagem humanizada, capaz de se conectar com a história de vida do cliente.

 

Para dialogarmos com essas vivências (que nem sempre são verbalizadas), precisamos criar vínculos afetivos, o que requer um tempo de contato maior, especialmente nas primeiras entrevistas, bem como um olhar mais atento por parte do consultor. Por isso, acredito que a consultoria de imagem do futuro estará sim repleta de aparatos tecnológicos. Mas para utilizá-los de maneira sábia, usando todo o potencial que essas tecnologias possuem, precisamos adotar um lema: mais humanização e menos técnica!

O problema do excesso de técnica no contexto da quebras de padrões e diversidade

 

A diversidade ganha passarelas, ruas, produções audiovisuais, red carpets e muitos outros espaços. Exigindo mais transparência das marcas, nunca discutimos tanto a importância da representatividade nas campanhas de moda e beleza. E ai de quem se limitar a discursos levianos! O caso da Victoria’s Secret é emblemático. No início de 2019, a fabricante americana de lingeries anunciou o fechamento de mais de 50 lojas. O valor das ações da L Brands, proprietária das linhas Victoria’s Secret e Bath & Body Works, caiu 41%. Mas, se no discurso publicitário a pauta parece um tanto mais resolvida, no dia a dia e no feed do Instagram, percebo que poucos profissionais de imagem e marcas de moda parecem realmente capacitados e dispostos a acolher e instigar a diversidade.

 

Faça uma breve observação dos consultores e empresas que você segue em suas redes sociais. Qual é a proporção de imagens de mulheres brancas, jovens e magras? E qual é a proporção de mulheres negras, gordas, mais velhas ou com algum tipo de deficiência? Quais são os discursos veiculados com essas imagens? Quais são as pessoas que interagem com esses conteúdos? Será que nós, consultores de imagem, estamos preparados para ir além do padrão?

 

Nesse sentido, precisamos repensar, até mesmo, os conteúdos técnicos que aprendemos em nossas formações. Muitos profissionais parecem obcecados pela ideia de fazer com que seus clientes pareçam sempre mais magros e altos. Mesmo quando o cliente manifesta não gostar de imposições, o consultor insiste em trazer seus ideais e valores. É como se não pensassem que essas regras levam nossos clientes a entender que devem sempre perseguir um padrão corporal e comportamental, o que é bastante degradante para a saúde.

 

Como nós, consultores, podemos ajudar nossos clientes a se vestirem do que são? É hora de escutá-los atentamente, como explicarei adiante.

Consumo consciente: novas possibilidades no campo da consultoria de imagem

 

Um número crescente de pessoas se conscientiza sobre seu impacto no meio ambiente. E, para mudar seus hábitos de consumo, elas buscam recorrer a uma série de alternativas. Um gráfico veiculado pelo Business of Fashion apontou que o mercado de roupas de segunda mão deve quase dobrar até 2023. Para nós, consultores de imagem, essa é uma excelente notícia.

 

Ajudar o cliente a consumir de uma maneira mais responsável é uma das maiores contribuições que o consultor de imagem pode oferecer hoje. Indicar lojas que dialoguem com os valores do cliente, ajudar na adaptação de peças, a encontras roupas em feiras locais e brechós são apenas algumas das possibilidades que se apresentam em nosso horizonte.

 

Para prestar um bom atendimento nesse contexto e promover reais mudanças, o consultor precisa entender as questões emocionais envolvidas em comportamentos consumistas e atitudes de apego. Embora o consultor não seja um psicólogo, ele precisa de ferramentas para auxiliar o cliente nesse processo.

 

Autoconhecimento: ferramenta indispensável na era da personalização

 

O “vestir-se de si mesmo” veio para ficar. Como psicanalista, acredito que para acessarmos a subjetividade das pessoas e ajudá-las a ter uma expressão mais autêntica, precisamos nos conhecer profundamente. É por meio do autoconhecimento que vamos além do objetivo, acolhendo a diversidade de comportamentos que formam a imagem e compreendendo o impacto de fatores inconscientes na expressão visual de nossos clientes.

 

Que o cliente deve estar no centro do trabalho, todo mundo sabe, mas será que estamos realmente preparados para isso? Uma consultoria humanizada exige que o consultor abdique de seu narcisismo e busque o autoconhecimento, aspecto que precede a técnica. Por meio dessa escuta aguçada e empática, podemos compreender a história de vida do cliente, garantindo que nosso trabalho não se perca em fórmulas genéricas.

 

O futuro da consultoria da imagem, como você pode compreender, é promissor. Na era da quebra de padrões, da inteligência artificial e da transparência, não há um manual de instruções que ampare a expressão visual das pessoas ou discurso vazio que se sustente. A capacitação técnica é necessária, mas sem a escuta, elas serão apenas regras jogadas ao acaso, incapazes de trazer satisfação e de ajudar verdadeiramente os nossos clientes.

Miriam Lima

 


Tags:

Deixe uma resposta